Atração super esperada para o terceiro dia do Festival de Artes de São Cristóvão (FASC), o Trem do Samba, com componentes da Portela, desembarca em Sergipe para emocionar o público. Trazendo os Sambas mais tradicionais, e o peso da história mais bonita deste ritmo tão brasileiro, conversamos com Marquinhos de Oswaldo Cruz que contou um pouco sobre o projeto, que já viajou até para a França, e que permanece movimentando o cenário cultural brasileiro.  


Você sente que o projeto Trem do Samba mantém viva a tradição das rodas de Samba ou é preciso inovar a cada ano, atualizar repertório, para conseguir permanecer no interesse popular?

Marquinhos de Oswaldo Cruz
: Pra mim, cultura é algo que se transforma com o tempo, não é algo fixo, com uma transformação que ocorre, gradualmente. Mas temos que ter o pé fincado nessa tradição, nessas heranças mais antigas, como a herança africana. O Trem do Samba hoje, no Rio de Janeiro, é uma espécie de condutor da memória coletiva, porque essa grande região onde nasce o Samba traz maravilhosos bem culturais imateriais. Eu comparo essa região pra onde se dirige o Trem do Samba, ao Museu do Louvre. O Trem do Samba poderia ser, justamente, o lustrador daqueles quadros maravilhosos, daquelas peças maravilhosas que há no Museu do Louvre. Representa o colorir de algo que está ficando em preto e branco.


O Samba é sem dúvida alguma o ritmo mais característico do nosso Brasil. Como você avalia esse reconhecimento atualmente? As cantoras atuais (Roberta Sá, Maria Rita....) conseguem manter viva essa chama. Elas são fundamentais ou precisamos revisitar, diariamente, os nomes mais tradicionais, como Tia Surica?

Marquinhos de Oswaldo Cruz
: O Samba com certeza é uma referência da música brasileira, como tantas outras: o baião, o xote...mas talvez, por ter sido o Rio de Janeiro a Capital da República, e daqui ter sido proliferado, através da rádio Nacional para todos os cantos, tenha se tornado a grande referência musical brasileira. É muito louvável, até porque a raiz do Samba sempre teve grande respeito pelas diferenças, pelo próprio Samba ser um ritmo diverso - não há só um tipo de Samba: tem o Partido Alto, o Samba Canção, o Samba de Terreiro, o Samba exaltação, o Samba de Breque, são vários ritmos de Samba - dessa diversidade se dá a alegria. É uma música negra, como o Jazz, mas isso não impede que outras pessoas de outras etnias, cantem o Samba. Até porque essa herança e cultura são tão fortes. Os negros que chegaram no Brasil vieram de tantas partes da África, que não é um país e sim, um continente, que não trouxeram uma língua em comum, como os judeus, os italianos, os espanhóis, os japoneses. Então essa linguagem fica a cargo dos trejeitos e das várias formas de cantar. Eu acredito que quando se canta Samba, mesmo vindo um loiro, dos olhos azuis, ali está uma presença negra cantando aquele Samba.
 

Vocês do Trem do Samba representam basicamente a Portela. Esse símbolo é algo de muito respeito, inclusive por outras escolas. Como a comunidade cuida deste símbolo?

Marquinhos de Oswaldo Cruz:
A Portela é fruto de algo que, pra mim, é muito maior que o Samba. Quando Noel Rosa fala de Samba, ele não cita as Escolas de Samba. No Samba "Palpite Infeliz", quando ele canta "..Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz..", ele fala das comunidades. A Portela é fruto da comunidade de Oswaldo Cruz. Quem veio primeiro ali, não foi a galinha nem o ovo, e sim a comunidade de Oswaldo Cruz que, por ordem institucional, já que naquela época era proibido cantar Samba, então legalizava-se, mas era necessário colocar um nome. Cada dia se colocava um nome: Conjunto Oswaldo Cruz, Vai Como Pode, Quem Fala de Nós Come Mosca e quando foram registrar, a Portela, o agente cartorário perguntou: Qual o nome? E a resposta foi: "Vai como pode". Daí ele disse: "Não! Esse nome não pode!. Onde fica essa escola?" Resposta: "Fica na Portela". Ele então responde: "Então o nome é Portela!" Então eu entendo que a Portela seja fruto dessa comunidade. Hoje ela se expande e é uma nação de torcedores não só no Brasil, mas fora dele também. E a gente tenta cuidar da melhor maneira possível. É claro que, com a globalização, com a internet, com a mundialização, as coisas ficam muito imediatas, mas a forma de cuidar é justamente fazendo coisas tradicionais, para que a Escola e não só ela, mas toda a comunidade, tenha o eixo ligado a essa tradição. O Trem do Samba e também a Feira das Yabás, que acontece no segundo domingo de cada mês, é algo imperdível para quem está fora do Rio de Janeiro conhecer, na comunidade de Oswaldo Cruz são celebrações dessa memória coletiva que precisa ser oxigenada. Esses eventos tradicionais fazem com que esses bens culturais sejam lapidados e perpetuados em nossa memória. Quem dera que as comunidades cariocas tivessem os bens culturais materializados, como tem a cidade de São Cristóvão.

 
Teremos Tia Surica no palco do Festival de Artes de São Cristóvão? Ela integra o Trem do Samba com qual parte do repertório?

Marquinhos de Oswaldo Cruz:
A minha comunidade é uma comunidade que sempre respeitou as pessoas mais velhas e lá o matriarcado é o maior símbolo dessa representação. As mulheres, as donas de Casa de Santo, essas senhoras, eram quem abria as portas de suas casas, onde todos os Sambas se faziam e hoje, a representante dessa tradição, mais conhecida no Brasil é a Tia Surica que, além de fazer tudo que todas aquelas senhoras faziam, ela também canta como ninguém, com uma alma maravilhosa. Ela entra no show, justamente no momento em que a gente vai falar da comunidade, vai falar da Portela.

 
O Trem do Samba chega a sua 22ª edição agora em 2017 e pela primeira vez se apresentará em Sergipe, no retorno do Festival de Artes de São Cristóvão (FASC). O que podemos esperar deste show enquanto peça chave de um ritmo tão brasileiro e por vezes esquecido?

Marquinhos de Oswaldo Cruz:
É uma forma de tocar Samba com muita tradição. É uma forma, realmente, como eu digo em uma música minha: "O Samba é o sussurro das vozes ancestrais do nosso povo. São essas vozes e memórias que se manifestam nesse espetáculo voltado pra essa tradição. É tão legal, ter Tia Surica nesse espetáculo, porque a gente referenda, cada vez mais, essa tradição. É um Samba que você não ouve nas rádios e não vê na grande mídia, porque é um espetáculo bem tradicional e é o mesmo, com pouquíssimas diferenças do que nós levamos para o Festival de Lille, na França, para 300.000 (trezentas mil) pessoas e é muito bom levar esse espetáculo para o Festival de Artes de São Cristóvão e, que com certeza, volta com chave de ouro.
 
O que não pode ficar de fora, enquanto repertório, de uma apresentação do Trem do Samba?

Marquinhos de Oswaldo Cruz:
Não pode faltar a energia que o Samba traz. O improviso, o miudinho e algumas músicas que são "chaves": Décima Sexta Estação (..."O Trem parou, rapaziada, chegou a hora de tomar uma gelada".); Foi um rio que passou em minha vida; Coração em Desalinho; Vivo isolado do mundo; e músicas específicas da comunidade de Oswaldo Cruz, como: Saco de Feijão (...De que me serve um saco cheio de dinheiro, pra comprar 1 kg de feijão?"); A chuva cai ("A chuva cai lá fora, você vai se molhar..."); Preciso Me Encontrar ("Deixe-me ir, preciso andar..."); Quantas lágrimas ("Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado, só em saber, que não posso mais...").