Multiplicadores das riquezas populares sancristovenses, os personagens que compõem o acervo cultural de São Cristóvão encantam pela beleza, criatividade e importância histórica do que produzem. Todo este trabalho agora também tem o reconhecimento nacional pelo Ministério da Cultura (MinC), por meio do "Edital Culturas Populares 2017", no qual três personalidades do município foram premiadas. 

Jorge dos Santos (Seu Jorge do Estandarte), Nivaldo  Oliveira e José Augusto dos Santos (Zé de Obakossou) estão entre os 500 artistas e personalidades nacionais selecionados pelo Ministério da Cultura para receberem o prêmio, que tem como objetivo fortalecer as expressões culturais brasileiras e valorizar quem mantém viva as manifestações populares nacionais. Por transmitir o conhecimento e pelo papel desempenhado no contexto histórico-cultural, o Ministério os concede a titulação de mestre. 

Segundo o presidente da Fundação Municipal de Turismo e Cultura João Bebe-Água, Gaspeu Fontes, a premiação reconhece a importância da produção cultural de São Cristóvão no cenário nacional. Também destaca os artistas e personalidades da área, que preservam e difundem as tradições sancristovense. “É muito importante para o município ver o trabalho dos seus artistas, a produção do seu povo valorizados. Para nós, sempre o foram, mas agora eles são oficialmente mestre, o que revela a força dos saberes populares.”   

O historiador e diretor de Turismo da fundação,Thiago Fragata, explicou que o órgão deu todo o suporte à iniciativa, orientando os interessados sobre o processo de inscrição. Ele defende ser este o papel das instituições públicas: apoiar todas as propostas que valorizam e divulgam as expressões do seu povo. “Esta premiação reforça o potencial cultural de São Cristóvão e destaca os nossos mestres, cujo papel é fundamental para preservar a cultura popular e socializar os conhecimentos”, avaliou Fragata. O diretor fez questão de agradecer toda a equipe da fundação pelo empenho e dedicação. “Fizemos uma verdadeira força-tarefa para que tudo desse certo. Estamos muito felizes e gratificados.”

Das 500 premiações nacionais, 200 são destinadas a pessoas físicas, outras 200 a coletivos culturais sem constituição jurídica, 80 a pessoas jurídicas sem fins lucrativos e com natureza ou finalidade cultural e 20 a herdeiros de mestres já falecidos (In Memorian), em homenagem à dedicação do trabalho voltado aos saberes e fazeres populares e às expressões culturais, com reconhecimento da comunidade onde viveram e atuaram. Cada iniciativa selecionada recebe R$ 10 mil.

Aos nossos mestres, obrigado! 

Mestre Jorge do Estandarte
“Sigo os caminhos do meu avô e passo os conhecimentos para as gerações futuras.”

Nasceu Jorge dos Santos na histórica São Cristóvão, no dia 27 de fevereiro de 1935. Aprendeu folclore na vivência com a família, pai, tio e avô que eram brincantes do Reisado, da Taieiras, da Chegança e do Batalhão, tradicionais manifestações da cultura brasileira, sem esquecer os blocos de Carnaval. Nos anos 1950, já coordenava a saída do Bloco Tira-teima, patrocinado pela fábrica têxtil Sam Christovam S. A. Morou no Rio de Janeiro entre os anos de 1960 e 1989, período em que trabalhou em duas escolas de samba: Acadêmicos do Salgueiro e Bafo de Onça.
 
De volta à terra natal, dedicou-se às tradições cívicas, religiosas e festejos culturais. Conhecido na cidade como Jorge do Estandarte em razão dos riquíssimos estandartes de alto valor artístico que produz. Coordena o Grupo União do São Gonçalo, que tem sede na própria residência, na sede de São Cristóvão, onde acontecem ensaios regulares de Reisado, Samba de Coco e Batalhão de São João. 

Mestre Nivaldo Oliveira
“Ensinar torna viva a minha arte.”

Entalhador, escultor e xilogravador, Nivaldo Oliveira despertou o interesse pelas artes plásticas aos 14 anos de idade por influência da profissão do pai, que é marceneiro-carpinteiro. Logo entrou no curso de Expressão Plástica (escultura, entalhe, xilogravura) no Museu de Arte Moderna da Bahia. 
  
No mundo das artes, Nivaldo domina as técnicas da escultura, pintura, entalhe, xilogravura e restauração.  Atualmente tem uma diversidade de matrizes entalhadas, com temas voltados para cultura popular que vão do cangaço aos brincantes do folclore, mantendo uma limitação na tiragem. 
 
As xilogravuras possuem traços próprios, marcantes e ricos em detalhes, que conquistam espaço e reconhecimento na cultura popular.  Além das exposições em diversos espaços culturais, a Editora Oxford comprou os direitos autorais de uma das xilogravuras (o Bando de Lampião) para ilustração de um livro didático do ensino fundamental, publicado no segundo semestre do ano 2015. Mantém um Ateliê no Centro Histórico de São Cristóvão. 

 
Mestre Zé de Obakossou (In Memorian)
“Quando a eternidade falar mais alto e eu estiver bem distante, espero que cada um cumpra com o seu dever e os meus ensinamentos”. 

O nome de registro é José Augusto dos Santos, mas por todos é conhecido por Zé de Obakossou. Por orientação espiritual, o mestre Zé de Obakossou viajou a Salvador e Rio de Janeiro em busca do aprendizado da Nação Ketu. No retorno a Sergipe, abriu casa em Aracaju, em 1951, e desde então começou um trabalho de difusão e iniciação junto à comunidade dos orixás (Xangô e Oxóssi) e seus respectivos festejos. Ele inaugurou o Axé no Rio de Janeiro, Jardim Leal, Duque de Caxias, em 1963; no conjunto Eduardo Gomes, São Cristóvão, também o Axé Ilé Obá Abassá Odé Bamirê (1986).

Na posição de candomblecista ciente do cuidado ecosófico (cuidado com o espírito,  com os outros e com o meio ambiente), promoveu mudanças em alguns ritos. Uma delas foi evitar uso de plásticos, garrafas e até cerâmica (aguidás) nas oferendas sempre colocada nas margens de rios, nas matas e estradas. Por esta razão é que foi convidado como palestrante para compartilhar suas ideias de preservação da natureza na ECO-92, realizado no Rio de Janeiro, Aterro do Flamengo, em 1992.

O mestre Zé de Obakossou morreu no dia 24 de outubro de 2006 no aeroporto Galeão (Tom Jobim), Rio de Janeiro, em meio a este que foi o grande esforço da sua vida: difundir a cultura Ketu. Ele jogou búzios, lançou cd de canções africanas, publicou o livro “A vida de um babalorixá” e iniciou cerca de 5 mil filhos na Nação Ketu. 

Fotos: Danielle Pereira  
 
 


Mestre Jorge do Estandarte
Mestre Nivaldo Oliveira
Mestre Zé de Obakossou
Gaspeu Fontes, presidente da Fundação João Bebe-Água
Thiago Fragata, diretor de Turismo